Crônica das histórias secretas, por Arion Fernandes
novembro 1st, 2011 § Deixe um comentário
Ela tinha um sonho, coisa pouca, quase nada, como costumava dizer. Uma menina franzina, frágil, quase sem graça, você diria, se a visse descer a rua, todas as manhãs. Sempre o mesmo caminho, o mesmo destino, a mesma hora. Levava consigo um sorriso de quem não desiste de acreditar que é possível e os olhos tristes de quem se acostumou a conformar-se.
Não foi difícil nos tornarmos amigos. Eu costumava ficar ali, sentado, olhando a paisagem em movimento de uma vida que agora, para mim, era somente lembranças. Certo dia ela chegou sentou-se e ficou a olhar fixamente para frente. Foi assim por outras tantas vezes, uma companhia silenciosa. Eu ensaiava um oi, quase saía, mas me parecia tão injusto que não fosse ela a primeira a falar. Esperei o tempo dela, por vários dias.
Até que então, certa vez, ela sorriu e mudou a direção do olhar, mas não me olhou e disse:
_Sua vida é tão inventada quanto a minha?
Sorri, tentando disfarçar que não tinha entendido a pergunta e disse:
_O que foi que você inventou?
_Não sei, já não consigo perceber a diferença. Mas você é meu amigo, não é? Achei que soubesse um pouco de mim.Fiquei a pensar se ela precisava de ajuda, ou de amigo, ou ser ouvida. Ela levantou-se e disse:
_Até amanhã! Quem sabe você tenha as respostas.Depois disso, minhas noites se tornaram uma insônia constante. Não conseguia parar de imaginar o que acontecia com ela, quem era e o que estava tentando me dizer. A noite se arrastava contrária à minha ansiedade em vê-la novamente, as perguntas se acumulavam, a curiosidade sobre a vida dela se misturava às lembranças da minha, aos fracassos que colecionei até aqui. Você espera que seja fácil, acha que vai vencer e fazer algo grande, mas a realidade oferece apenas um banco de praça e alguns instantes com alguém desconhecido.
No dia seguinte eu estava lá, mas ela não. E por vários dias eu esperei, mal controlando a minha curiosidade. Pouco mais de uma semana ela voltou, antes que pudesse se sentar, eu falei:
_Achei que retornaria no dia seguinte._Resolvi dar um pouco mais de tempo a você, para descobrir as respostas.
_Pensei que quem daria as respostas era você!
_Tudo que preciso dizer é que eu sonho às vezes, com coisas que não são minhas, com pessoas que não conheço. Eu sonhei com você, por isso vim te conhecer. Você consegue acreditar nisso?
E ela foi embora novamente. Só a vi mais um vez, quando ela sentou ao meu lado e repetiu que tinha um sonho, mas tinha também um segredo. Sorriu de novo aquele sorriso de quem acredita, olhou para o infinito e disse: quem sabe um dia eu te conto. Agora eu volto para esperá-la e olhar todos que passam, esperando uma história diferente.
Postado na sexta-feira, Outubro 01, 2010, por Espaço Diverso (blog do Arion Fernandes) link para a crônica no blog dele aqui Crônica das histórias secretas
Crônica e Poesia
junho 7th, 2009 § 1 Comentário
Você já ouviu falar de Cáh Morandi??
Há pouco eu conheci seus textos e de cara me identifiquei. Eu não sei quem é ela, nem de onde escreve, por algo que já li em uma crônica acredito que ela seja formada em Administração. Mas o que me interessa mesmo agora são os escritos da moça.
O link pra site de crônicas dela está ali do lado em “ Cáh Morandi – Crônicas“” , mas ela escreve também boas poesias.
Pra conferir deixo aqui uma crônica, que encontrei no fim de Abril, mas deixei salva nos “preferidos” (favoritos), e hoje quando a reencontrei resolvi postar. Depois ainda tem duas poesias da moça Cáh Moradi::::
“não se afobe não que nada é pra já, o amor não tem pressa ele pode esperar em silêncio…”
(Título: Futuros amantes, Chico Buarque)
.
Talvez nunca mais se cruzem. Talvez ela mude de emprego, alugue um apartamento novo de frente para um pracinha com uma única árvore, comece a acordar às cinco da manhã, passe o café enquanto procura um par de meias, venda o carro, comece a pegar duas lotações para chegar no novo emprego, ache até bonito o uniforme, quem sabe canse no fim do dia, chegue atrasada no ponto de ônibus, não tenha o dinheiro para o táxi. Ele deve ter escolhido ficar em São Paulo, ou no Rio de Janeiro ou em Brasília, não importa aonde ele tenha ficado, talvez ele queira ganhar muito dinheiro, comprar um flat de frente para o mar, viajar para Dubai no próximo feriado, comprar um carro novo, pedir para alguém fazer seu café, ter uma sala só para ele no andar mais alto do prédio, sapatos de couro, meias bem alinhadas, talvez ele preferisse ternos mais claros, um cartão com limite mais alto. Eles não souberam quando começaram ou terminaram, se por algum momento a mágica do “nós” chegou a acontecer, se podia ser amor ter vontade de dividir uma pizza. Talvez ela quisesse somente uma companhia, alguém para chamar de “amor”, um par de meias novas no Natal e passear na pracinha que tem apenas uma árvore. Ele quis um apartamento maior, a estabilidade que pode ser superficialmente alcançada, um salário mais proveitoso. Nunca disseram adeus, nem até mais, nem qualquer outra coisa que desse possibilidade de um fim ou de um próximo encontro; terminavam as conversas com beijos, quando mais frios com abraços. Talvez ele a ame. Talvez ela quisesse saber disso. Por causa da mudez das emoções que sentiam, eles não sabiam que destino davam a si. O bonito deles é a coisa mais simples em suas histórias: de alguma forma silenciosa e cheia de esperança, eles esperavam um pelo outro, embora nenhum pedido tenha sido feito.
(Cáh Morandi)
aviso de chegada
Tenho vindo de longe
ao teu encontro
atravessei continentes
e terras que não tem nomes
comi um pouco de fome
tornei-me estrangeira
de mim mesma
Espera
estou quase no fim do caminho
me reserve para a chegada
um pouco dessa tua doçura
para que quando eu te beijar
o gosto amargo da distância
se dissolva como se nunca
tivesse existido
tentar chegar ao amor
é como reduzir da terceira para a segunda,
engrenar a marcha ré e pisar fundo,
é desacelerar, é querer voltar,
é desfazer as malas e voltar para casa,
é não perder o cheiro,
é não cobrir o corpo,
é não perder o tato,
é querer ficar,
é não abandonar as memórias…
tentar chegar ao amor:
pensar na primeira coisa
que deveria se esquecer.(Cáh Morandi)
(Cáh Morandi)