(11º) Casos Crônicos

Videogame, por Ney Pereira

No dia oito de março de 1992 eu não fui pra escola. E olha que minha mãe quase nunca me deixava faltar na escola, só em casos extremos como doença, tempestade paulistana ou derrota vexatória do Coringão.

Mas dessa vez o motivo era nobre: tinha passado a noite inteira jogando videogame.

Nem todo mundo tinha um na época. Por isso, as locadoras costumavam alugar os consoles

pra molecada jogar lá mesmo, pagando por hora. Podíamos trocar os cartuchos ou passar horas seguidas jogando o mesmo game. Rolavam disputas, campeonatos, apostas e quem perdesse escutava bastante.

Bem em frente à minha casa, havia uma dessas, com o pouco criativo nome de Games&Games. Eu ia por prazer e também por business – aos dez anos, entregava lá os pães de mel que minha avó fazia. Combinação perfeita de lazer e negócios, que me rendeu uns trocos e o suspeito apelido de “Ney pão de mel”.

Naquele dia, havia passado boa parte da tarde jogando Street Fighter II. Nunca gostei muito dos jogos de luta. Além disso, eu era bem ruim. Mas acontece que, pra inteirar a grana pra jogar mais tempo, a molecada juntava as moedas que cada um tinha no bolso, e o resultado é que frequentemente havia grupos de três ou quatro moleques revezando a vez de jogar no mesmo videogame – os joysticks ficavam imundos. E como os jogos de luta eram os preferidos da molecada, eu acabava me resignando a levar um cacete toda vez que jogava.

Quando cheguei em casa, minha mãe sentencia: Você nunca mais vai jogar videogame nessa locadora. Fiquei atônito com aquela proibição tão radical e inesperada. O mistério durou até a noite.

Minha tia Guga trabalhava numa agência de publicidade, e sempre nos trazia um bolo de revistas. Eu gostava da maioria delas – tinha de carro, variedades, games, etc. Naquele dia ela me entregou o bolo de revistas, e eu fui direto pra Ação Games. Quando me viu rasgando o plástico, ela perguntou se eu já tinha visto o “brinde” – e de dentro de um envelope de papel pardo tirou meu Mega Drive novinho…

Não havia nada mais bonito. O design do console japonês era futurista, como os carros esportivos nipônicos em voga à época. O plástico preto reluzia, convidativo. 16 bits de ação e aventura, ao meu dispor. Passei a noite jogando Sonic – até hoje meu jogo favorito. Ganhei calos nos dedos – e um ótimo motivo pra não ir pra escola no dia seguinte.

A “ameaça” da dona Carmen mãe não se cumpriu – mesmo dono de meu próprio videogame, ainda ia à locadora bater papo com os amigos, disputar campeonatos e levar a ocasional surra. Mas no Sonic, ninguém ganhava de mim não…

Se quiser mais textos do autor envie e-mail para casoscronicos@gmail.com

;)

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(10º) Casos Crônicos

Chocolate, por Ney Pereira

No caixa da loja de conveniência, Alê esperava ansioso. Saíra no meio da chuva pra comprar um chocolate, e agora imaginava feliz o momento em que mataria a vontade que o incomodava há uma semana. Chove torrencialmente no domingo à noite. Fernanda espera no carro. Ele gesticula, tentando dizer algo, e ela tenta decifrar através da enxurrada que escorre pelo para-brisa. Com uma barra grande de chocolate na mão, Alê articula as palavras mexendo a boca de forma exagerada, sem emitir som. Mesmo assim, ela abaixa o volume do rádio “Quer um pra você?” – pergunta, balançando a mão com o chocolate. Ela faz com a cabeça que não. Alê bate com o chocolate no peito, e, com os lábios, articula claramente: “Esse é pra mim”. Fernanda faz sinal de positivo, e aumenta o volume novamente. Ele entra no carro correndo, e tem dificuldade pra fechar o guarda chuva ensopado. “Quero comer esse inteiro”, diz, enquanto entrega a Fernanda uma garrafa de água com gás. Ela dá a partida, em silencio. Demora uns três faróis vermelhos pra ela formar a pergunta. “Você vai comer esse chocolate inteiro?” “Faz tempo que to com vontade, e finalmente lembrei de comprar. Quer que abra sua água?” Ela não responde. Alguns quarteirões depois, pergunta de novo. “Você acha que deve comer esse chocolate inteiro sozinho?”

Alê olha para a própria barriga. Não vê nenhuma – vinte quilômetros de bike, três vezes por semana. “Devo e posso”, conclui triunfante. Sabia que aquele não devia ser o ponto principal – ela costumava soltar um comentário desconexo com o real problema antes de fazer a investida final. Mais silencio.

“Se eu te pedisse um pedaço do chocolate, você não me daria?” Disse, sem encará-lo.

“Você quer um pedaço?”

“Não disse que quero. To perguntando se você me daria.”

“Eu perguntei se você queria, teria te comprado um. Quer que eu vá buscar?”

“Eu não quero chocolate.”

“Ok”.

Ele deu o assunto por encerrado, e, satisfeito, pegou o chocolate. Rasgou a embalagem e deu uma mordida daquelas de comercial, em câmera lenta, deixando as marcas dos dentes. Suspirou. Fernanda dirigia mais rápido.

“Então se eu pedisse, agora, um pedaço do seu chocolate, você não daria?”

Ele pensou e respondeu, de boca cheia: “Não.”

Ela riu, irônica, e balançou a cabeça.

“Quatro anos de relacionamento, e é isso o que eu ganho. Você não consegue perceber que não se trata só de um chocolate, né?”

“De maneira nenhuma, percebo perfeitamente que não é só um chocolate. É um senhor chocolate. Têm avelãs e um recheio cremoso, um abuso. Meu preferido.”

“Você é um insensível, Alexandre.”

Ele quase engasgou com uma avelã.

“O que?”

Fernanda desligou o rádio.

“Me dá um pedaço desse chocolate.”

“Faço melhor: te dou um inteiro. Faz a volta, ainda estamos perto do posto.”

“Eu quero um pedaço do SEU chocolate.”

“Você tá fazendo de birra. Porque não aceitou quando te ofereci?”

“Eu não quero comer chocolate, Alexandre. Quero saber se você me ama.” Ele ficou tão surpreso que mordeu uma fileira inteira.

“Esse chocolate, Alexandre, representa a sua vida. Ela falava pausado. Você só pensa em você.”

Ele tentou argumentar, ela nem ouviu.

“Esse chocolate, Alexandre, é freudiano. É fálico. Representa seu poder masculino, do qual você não abre mão. É um símbolo antropofágico e machista, instrumento de dominação. Você come o chocolate, que é feito de poder, e se torna mais forte, Alexandre. Você, com cada mordida, me mostra, me prova que você está no comando, e não vai dividi-lo comigo, não vai descer do trono. Você, Alexandre, se RE-CU-SA a aceitar o protagonismo da mulher contemporânea.”

Alexandre já não falava mais nada. Mastigava em silencio, dois quadradinhos de cada vez.

Ela continuava, cega de raiva.

“Chocolate é a vingança dos astecas. Onde chegavam, plantavam cacau como símbolo de sua dominação. Mesmo quando foram conquistados e colonizados, mas viciaram o europeu invasor”.

Com a boca aberta (e suja de chocolate), ele ainda tentava assimilar a palestra sobre o machismo gastronômico da América Central quando a viu parar o carro no meio da rua, pegar a bolsa e sair andando sob o dilúvio paulistano. Ficou ali, um Montezuma dos tempos modernos, sentado no banco do passageiro e segurando meia barra de chocolate.

“Seu asteca chauvinista”, gritava Fernanda, no meio da noite.

 

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(9º) Casos Crônicos

Vinte e um anos, por Ney Pereira

Ouço com atenção o que diz o rapaz sentado à minha frente. O bar em que estamos tem o péssimo hábito de deixar as garrafas vazias de cerveja em cima da mesa, como troféus ou lembretes. Tomei as primeiras duas junto com ele – é preciso criar intimidade e segurança, nestas situações. Agora bebo água com gás – é preciso manter-se no controle, nestas situações. Desvio dos cascos de vidro escuro pra olhar em seus olhos, ler suas palavras antes mesmo que as diga.

Nas últimas duas horas, percebo que ele me promoveu de colega de trabalho a oráculo sentimental. Parece confiar nos meus oito ou nove verões a mais como fonte de alguma sabedoria qualquer.

Olho pra ele. Vinte e um anos, idade onde acontece bastante coisa. Parece que foi outro dia, penso. Censuro a mim mesmo, mentalmente: pare de viajar no tempo e preste atenção no que lhe diz este jovem, de camisa xadrez aberta sobre uma camiseta Hering e barba por fazer.

Ele fala pausado. Tem autocrítica suficiente pra saber que vai enrolar a língua se tentar falar rápido, então calcula as frases, planeja as palavras.

Me conta que sofre por uma moça, com quem está há poucos meses. É sua segunda namorada. Henrique empilha elogios à menina: bonita, inteligente, fogosa. Ensina-o muitas coisas, o apóia em suas decisões. Encoraja vôos maiores, ousadias, impetuosidades. Eu vasculho gavetas da memória, remexo arquivos mentais e vou colando rostos e nomes da minha própria trajetória amorosa até formar uma imagem que julgo se aproximar à namorada do Henrique. E fico esperando o “mas” – quando alguém começa a descrever uma pessoa com muitas qualidades, pode esperar que vem um “mas”.

“…mas eu não sei”, diz ele. Antes de terminar a frase, vejo em seus olhos que ele sabe, e sabe muito bem. Dou mais um gole na minha água com gás e deixo que continue. “Não sei. Ela às vezes parece estar em outra, sabe? Anda com uns caras mais velhos, estranhos. Fala de doutrinas e teorias
que não entendo, discorre com naturalidade sobre práticas que nem sonho dominar. Fala de lugares que conhece bem, e que me assustam. Expõe sua idéia do meu papel na relação, e me pergunto se estou pronto para cumpri-lo”. Ele me conta que ela diz isso tudo num tom entre faceiro e desafiador, medindo suas reações, tateando, passeando por seus limites. Pensa em terminar o namoro, e a idéia o faz estremecer – tem certeza que jamais encontrará alguém igual a ela. Henrique segura o copo com as duas mãos, tem as sobrancelhas arqueadas em angústia, projeta os ombros pra frente, me pede socorro sem dizer uma palavra.

Me inclino na cadeira. Olho pra ele e luto pra separar o que é novidade do que é espelho, flashback. Vejo sua vida inteira estendida na minha frente, como um cigano bebedor de água com gás. Penso na talvez eterna e intransponível diferença de maturidade entre homens e mulheres da mesma
idade. Vejo as várias, muitas mesmo, namoradas que virão após essa. As mulheres que ele verá partir, as que ele mandará embora, as que irá pedir pra que fiquem. De joelhos, algumas. Vejo as que o ensinarão coisas, as que aprenderão com ele, as que passarão sem levar ou deixar nada. Tenho mesmo vontade de rir deste rapaz, que ao final do primeiro dia de férias acha que todo o resto do verão não lhe guarda coisa melhor. Vinte e um anos! Vontade de chacoalhá-lo pelos ombros, de dar mesmo uns tabefes no rosto ainda pontilhado de espinhas, apontar a imensidão de longos dias ensolarados que estão por vir, ansiosos para ser saboreados, vividos, conquistados.

Termino minha água com gás e dou-lhe o único conselho possível. Que agarre-se àquela segunda namorada com todas as suas forças. Devote a ela toda sua paixão, e qualquer noção que já possua sobre o amor. Que lute desesperado para não perdê-la, faça esforços, concessões e promessas. Que ao final de todas as tentativas, se desespere, esperneie, chore de soluçar. Escreva cartas, faça plantão à sua porta, telefone no meio da madrugada. Faça cenas de ciúmes, envergonhe a si mesmo, até que os amigos intercedam e lhe digam que já chega. Oras, que outro jeito há de aprender? Quem é que enxerga a praia quando a água não da pé?

Levanto e deixo que ele pague minha água com gás. Dou-lhe ainda um conselho final: faça essa barba, rapaz. Dor de cotovelo com dignidade machuca menos.

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Enjoy ;)

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Para que é teu jornalismo?

Hoje é comemorado o dia do repórter, o que me levou pensar sobre qual diferença dele para o jornalista?

A maior e mais acessível (?) enciclopédia diz que: Repórter é um jornalista que pesquisa a informação apresentada em diversos tipos de meios de comunicação. É o responsável por trazer aos leitores as últimas notícias. E que: Jornalismo é a atividade profissional que consiste em lidar com notícias, dados factuais e divulgação de informações. Também define-se o Jornalismo como a prática de coletar, redigir, editar e publicar informações sobre eventos atuais. Jornalismo é uma atividade de Comunicação. Ao profissional desta área dá-se o nome de jornalista. O jornalista pode atuar em várias áreas ou veículos de imprensa, como jornaisrevistastelevisão,rádiowebsítioswebloguesassessorias de imprensa, entre muitos outros.

Em um dicionário online encontrei a definição de jornalista (francês journaliste)como:

1. Pessoa que tem por profissão escrever em periódicos. = Periodista

E nesse mesmo dicionário repórter é :

1. Jornalista, noticiarista, colhedor de informações para a imprensa, rádio e televisão. (Plural: repórteres.)

2. Pessoa que tem por profissão trabalhar no domínio da informação, num órgão de informação social numa publicação periódica escrita ou na televisão, na rádio, na Internet.

 Mas na verdade não faz diferença, assim como o diploma não é garantia bom jornalista.

Não interessa a real diferença entre esses dois, se um é  quem escreve e o outro  quem entrevista ou aquele que aparece na tv.   O essencial é que, acima de tudo, aquele profissional que nos traz informação tenha estabelecido, em tempos remotos (talvez até mesmo quando ainda nem sabia o que seria quando ‘gente grande’), uma enorme parceria com a verdade.

Ser honesto deve ser a primeira característica de um jornalista/repórter, mais do que escrever ou falar bem, ser comunicativo ou saber as regras de ortografia e gramática de seu idioma.   Em primeiro lugar, é essencial que seja honesto, depois que seja responsável e que não espere por reconhecimento. Jornalismo por estrelismo não é a necessidade da sociedade, é carência e envolve autoestima.

A sociedade precisa dos bons jornalistas, simples.

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Antes de ‘iêeee, sexo pegando fogo’

Reblogged from todo dia uma música:

Clique para visitar o post original

Fazia 8 anos e 3 álbuns que a banda existia quando eles lançaram o Only By The Night (2008) com as músicas Sex On Fire e Use Somebody e dai a banda que fazia até seu sucesso e vamos dizer que bastante gente conhecia ‘Molly’s Chambers’ (do primeiro álbum) finalmente apareceu pro mundo mainstream, virando até trilha de novela da Globo, daí já viu… De lá pra cá, Sex On Fire continua tendo a mesma reação do público gritando iêeeeeee em cada refrão, uma pena, porque é uma das piores …

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Folk, no Musicoteca

Bem legal o som da banda e 
ainda a forma o como Musicoteca o apresenta 
(sugerindo, sem invadir o espaço de alguém)
 
"A banda de folk paulistana The Outside Dog
 acaba de estrear no formato vídeo com o clipe 
de “Open D Blues”. A Musicoteca  te convida 
a assistir esse lindo registro"

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Vem ver com os próprios olhos

"Se você perguntar por mim
vão dizer que eu ando muito estranho
vão dizer que eu ando por aí
quando você perguntar por mim
se você perguntar por mim
vão dizer as coisas mais estranhas
nenhuma resposta vai satisfazer
quando você perguntar por mim
! vem !
ver com os próprios olhos
! vem !
ver a vida como ela é
se você está mesmo a fim
de saber por onde eu ando
de saber por quê eu ando assim
é melhor nem perguntar por mim
! vem !
ver com os próprios olhos
! vem !

  Humberto Gessinger
http://twitcam.livestream.com/3gki7
A primeira música da primeira twitcam

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Desculpa Saint-Exupéry, mas eu discordo


Porquê?

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Amar la trama más que al desenlace

 

Gosto dos planos,
mesmo que um dia os gostos mudem e a direção dos passos também
mesmo que eles se dissolvam mais adiante
O que importa são as conversas e o sexo, os gestos, a presença e a saudade
o abraço, a expectativa e o cuidado
e os planos importam mais que o desenlace

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Simples, bacana e útil:

Conheça o projeto ‘Que Ônibus Passa Aqui, da Shoot The Shit, pela Catarse

Que Ônibus Passa Aqui – Shoot The Shit · Catarse

E parabéns para os caras que realizam a ideia

;)

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Uma dica (saudável)

 
Concentre-se apenas em estar com aquelas pessoas que queiram fazer as coisas que você queria que elas fizessem.
Essa compreensão de mundo permite que você se de bem com amigos, sócios comerciais, clientes, amores e estranhos.

*Alterei  esse trecho do texto, da primeira pessoa (eu) para a terceira (você)
** O texto original e completo, escrito por Harry Browne,  aqui Um presente de Natal definitivo para a minha filha

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O legado de Elis

“Sempre vou viver como camicase. É isso que me faz ficar de pé”

Hoje, 19 de janeiro 2012, completam 30 anos da morte da cantora Elis Regina.

Sem dúvida ela foi das grandes cantoras do Brasil, com 15 anos lançou o primeiro disco de sua carreira, Samba eu canto assim (CBD, selo Philips). E ainda foi pioneira de cena independente, quando, em 1966 lançou o selo Artistas, que produziu o primeiro disco independente no Brasil, intitulado Viva o Festival da Música Popular Brasileira, gravado durante o festival de mesmo nome.

Como muitos outros artistas, inquietos e grandiosos, morreu cedo e em virtude de seus excessos. Mas antes imortalizou inúmeras canções como, por exemplo, ‘Como nossos pais’, de Belchior, ‘Aquarela do Brasil’, de Ary Barroso e ‘Nega do Cabelo Duro’, de Rubens Soares. Na época também apoiou e divulgou novos cantores, como Milton Nascimento.

Com certeza a história de Elis não se separa da história da música brasileira, ainda mais nos dias de hoje, em que vivem dois dos grandes feitos da cantora: seus filhos, Maria Rita e João Marcelo Bôscoli.

Ela, Maria Rita, é uma cantora surpreendente, apesar de no início de sua carreira como cantora ter sido muito comprara a mãe, conseguiu mostrar seu brilho e talento próprios, o que possibilitou ser uma das melhores cantoras da atual cena musical brasileira.
E ele, João Marcelo Bôscoli, além de músico, seguiu o bom exemplo da mãe e promove músicos independentes através da gravadora Trama Virtual, o que sem dúvida é outro grande passo para  a cena musical nacional.

Hoje devemos agradecer por tudo que eles Elis deixou, suas obras e seus filhos

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A simplicidade e grandeza d’A Banda Mais Bonita da Cidade

Reparem na simplicidade e grandeza da moça cantando e a letra da canção ‘Nunca’
(Me encantei, essa já está no repeat do meu player)

No site da A Banda Mais Bonita da Cidade tem o cd disponível para download e compra ;)

 

 

Nunca, diga não pra mim
Eu não vou poder trabalhar, conversar, descansar sem o teu sim
Seja sempre assim
Por favor me dê um sinal
Um cartão postal, um aval dizendo assim

‘Não, não é o fim, dure o tempo que você gostar de mim
Entre o não e o sim, só me deixe quando
o lado bom for menor do que o ruim

Nunca se esconda assim
Eu não vou saber te falar, te explicar que
Eu também me assusto muito
Você nunca vê que eu sou só um menino destes tais
Que pensam demais
Logo mais, vou correr atrás de ti.

‘Não, não é o fim, dure o tempo que você gostar de mim
Entre o não e o sim, só me deixe quando
O lado bom for menor do que o ruim’

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Lembrança da minha infância

Lembrança da minha infância Um dos meus traumas é não ter fotos do meu primeiro ano de vida. Talvez por eu ter sido um nenê muito feio a família consumiu com as fotos e combinou de me contar que elas foram roubadas, ainda quando o filme estava na máquina em uma das vezes que assaltaram nossa casa.
Sobre a minha nada beleza (“parecia um ratinho: magricela e branca”, diz meu Tio, até hoje) a minha mãe diz não era tanto assim, mas sobre o sumiço das fotos ainda acredito na versão da família.
Talvez para compensar essa falta de fotos, durante muitos anos, meu brinquedo preferido foi uma máquina fotográfica antiga. Pelo que lembro era muito parecida com essa da foto e como estava estragada eu podia brincar a vontade.
Era minha alegria.
Lembro que me sentia gente grande, fotografava tudo pela vizinhança, no meu quarto e enquanto viaja com meu carro imaginário. No primeiro degrau das escadas que levavam até a entrada da casa ficava o meu assento, em frete ao volante ( também imaginário ) e o último degrau era o bagageiro, às vezes minha irmã me acompanhava, mas quando as amigas se juntavam a brincadeira logo terminava, elas preferiam brincar de algo mais divertido ao invés de ficarem sentadas viajando (Como pode? Hehehe)
Hoje procurando por uma câmera que fosse boa e não muito cara encontrei essa, ainda não posso comprá-la, mas as lembranças que ela trouxe são muito boas

Cuidem-se e sejam felizes
Cissa

Ps: Amanhã (07/01/2012) a foto da contracapa do jornal em que estou trabalhando foi eu quem fiz ;)

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Sobre a lealdade

(roubei da Poetriz)
 

As pessoas deviam ser leais umas com as outras, mesmo que não fossem casadas. Em certa medida, a confiança devia ser mais profunda, porque não era santificada pela lei.

Charles Bukowski in “Mulheres”

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(8º) Casos Crônicos

Pelo direito à comida boa, por Ney Pereira

Há poucas canalhices maiores do que servir comida ruim. A cidade de São Paulo tem alguns dos melhores pratos deste planeta; ao mesmo tempo, freqüentemente nos serve cada gororoba de embrulhar estomago de ogro. Às vezes isso acontece em casas de suposta boa estirpe, por sovinice ou preguiça. O Kassab, que proíbe tanta coisa, deveria banir o rango malfeito. Olhe em volta e veja o que eu digo.

Qual foi a ultima vez que você comeu um bom croissant? Daqueles com a massa folhada no ponto certo, conseguida à custa de manteiga da boa, do tipo que o cardiologista te pediu pra passar longe. Gosto muito de ir a cafés. Mas tenho a impressão que, salvo algumas raras e caras exceções, está cada vez mais raro encontrar um salgado decente. É tudo congelado, amarelo e massudo.

E o ketchup? Fazer ketchup dá trabalho, então dá pra entender que muitos lugares optem pelo industrializado. Mas não dá pra entender como se consegue um ketchup cor de rosa! É feito de goiaba?

Há preguiça também na pimenta. Grande fã do toque ardido, sempre peço uma pra acompanhar um salgado, dar um gostinho no arroz branco ou incrementar um hambúrguer. É grande a decepção quando vem aquele vidrinho com um líquido ralo e sem personalidade. Sábios aqueles que preservam o costume de fazer a própria conserva, em azeite, limão ou cachaça, com pimenta bode, malagueta ou cumari, batida ou inteira – a famosa “da casa”.

A lista segue: “Risotto” com arroz comum. Strogonoff sem champignon. Batata palha de saquinho. Pratos que segundo o menu levam “aquele” requeijão cremoso e, quando chegam à mesa, não tem “aquele” requeijão cremoso.

Um professor que tive na faculdade de design dizia uma coisa sobre o material usado para o curso. Quem paga jabá, come jabá; quem paga filet mignon come filé mignon. A frase é certeira e merece dois adendos: tem muito jabá com preço de filé mignon por aí; e se é pra comer jabá, que seja jabá bem feito. O barato não precisa ser ruim; mas o caro tem obrigação de ser ótimo.

Também me aborrece ver a atual homogeneidade dos nomes dos estabelecimentos: tudo virou “ria”. Comedoria. Temakeria. Brigaderia. Empadaria. Cupcakeria. Paneteria. Bruschetteria. Hamburgeria. Batataria.

São Paulo tem algumas das minhas melhores memórias gastronômicas. Esfiha do Halim. Hamburger do Seu Osvaldo, no Ipiranga. Pizza do Camelo. Empada do Rancho (essa já foi melhor…). Coxinha do Veloso. Pastel da feira do Pacaembu. Bolinho de bacalhau do Bar do Léo. E tantos outros. À medida que as casas crescem e se popularizam, às vezes perdem exatamente o que as tornou especiais: o cuidado com um detalhe. Esse patrimônio tem que ser bem cuidado – é triste vê-lo ameaçado pela sanha do lucro fácil, pela pressa ou simplesmente a falta de amor ao se preparar um prato.

Receba direto no seu e-mail, só pedir em  casoscronicos@gmail.com

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Personagem anônimo

 O personagem do ano é o anônimo que protesta nas praças do Cairo e na frente da Bolsa de Nova York.
É o cidadão que fez a diferença em 2011 e que buscou na ruas os seus direitos.

Aqui Midia Mundo

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O Teatro Mágico de volta

Sim, eu sei que eles nunca pararam. Mas para mim, eles estão de volta

Fiquei um tempo sem ouvir, fui conhecendo outras bandas e acabei os deixando de lado, mas encontrei o lançamento do novo cd em alguns vídeos pela internet e a trupi voltou para o meu player ;)

(Depois desse vídeo, quero muito assistir um show deles)

E aqui oh http://www.youtube.com/user/oteatromagico?feature=watch tem todos os vídeos

Só curtir

;)

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À primeira vista « Bukowski

À primeira vista « Poetriz

As pessoas são interessantes à primeira vista. Depois, lenta mas seguramente, todos os seus defeitos e loucura se manifestam.

Charles Bukowski in “Mulheres”

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Humberto sobre início do Pouca Vogal

Bem sem querer achei esse texto. Fui assistir a twitcam do dia 11 de setembro e acabei lendo isso:

Há três anos, em 11set2008, o site Pouca Vogal foi ao ar com quatro músicas inéditas. Naquela noite, aconteceu algo que, por um tempo guardei em segredo. Hoje me sinto à vontade para contar.

Cheguei em casa, vindo do estúdio com aquela ansiedade boa de mostrar o novo trabalho. Trazia num CD as canções que eu prontamente baixei para o computador a fim de mandar para o site.

Chovia muito. Quando eu ia clicar ENVIAR, um raio atingiu meu prédio. Tomei um susto, fiquei na escuridão. Caramba! O que aquilo significava? Seria sinal de que eu estava fazendo uma bobagem lançando um novo projeto depois de tanta estrada para chegar onde eu havia chegado?

Com uma vela, catei um modem 3G e consegui mandar as músicas mesmo no escuro. Quando a luz voltou, a parede estava chamuscada, preta, em volta dos pontos da internet. Tive que trocar toda a fiação.

A dúvida me perseguiu por algum tempo enquanto o projeto engatinhava e muita gente me dizia com palavras ou silêncios que eu havia regredido, tocando em lugares menores, no esquisito formato de power-duo, sem música nas rádios, etc…

Alguma coisa me fez seguir. Certamente não foi teimosia. Alguma energia boa me fez seguir. A mesma energia boa que me acompanhou nos Engenheiros do Hawaii e no Gessinger Trio. A mesma energia boa que espero encontrar depois da curva. Não por mérito meu. Por bondade de quem me acompanha há tanto tempo. A galerinha “de fé”.

Era isso! Aquele raio era energia boa! As dores do parto não deveriam ser chamadas “dores”. Vendo em retrospectiva, foi muito legal estar ali, na escuridão, ao som da chuva, numa ilha, mandando ao mar mais mensagens em garrafas.

Este é o audio da primeira gravação, caseira, do que acabou se tornando a música POUCA VOGAL. Ao gravar estes devaneios, costumo usar a data como nome do arquivo. No caso, 31jan2006. A letra pintou mais tarde. Só completei depois dos primeiros ensaios com Duca. O resto já é história.

para escutar aqui :: http://www.poucavogal.com.br/musicas/mp3/31jan2006.mp

Reeditando do desativado www.clarissadutra.tumblr.com

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Te cuida (é apenas isso)

Roubei da Poetriz, que roubou da Léia.

 

Me cuidarei, pode deixar. Me cuidarei para estar inteira amanhã de novo, para te ver de novo, te beijar de novo. Me cuidarei para me tocares com suavidade, para nunca encontrares um arranhão sobre a minha pele. E cuidarei do meu humor, dos meus cabelos, cuidarei para não perder a hora, cuidarei para não me apaixonar por outro, cuidarei para não te esquecer, vou me cuidar.

Me cuidarei ao atravessar a rua, me cuidarei para não pegar um resfriado, me cuidarei para não ficar doente. Me cuidarei, meu amor, enquanto estiver longe dos teus olhos, nos momentos em que você não pode cuidar de mim.

Fica a meu encargo voltar pra você do mesmo jeito que você me viu hoje. É de minha responsabilidade não ficar triste, não deixar ninguém me magoar, não deixar que nada de ruim me aconteça porque você me ama e não agüentaria. Claro que me cuido, nem precisava pedir.

Te cuida, dissera ele. E eu ouvi como se fosse um te amo.

- Martha Medeiros

 

Reeditando lá do desativado www.clarissadutra.tumblr.com

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Vera Loca com trabalho novo

Lá no site dos caras( www.veraloca.com.br ) tem o novo álbum, Parece que foi ontem, na íntegra

Enquanto isso, curte o vídeo de Cuidado Ana aqui

;)

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Antigo, mas bem bom

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New Photography in Korea (5 photos)

© Kim In Sook.

Above: In her series Saturday Night, Kim In Sook constructs the fantasy of every voyeur: The curtains are wide open in all 66 windows of a hotel, shamelessly exposing the occupants as they go about their business, some of it quite intimate.

Acima: Em sua série Saturday Night, Kim Sook Em constrói a fantasia de cada voyeur: As cortinas estão abertas em todas as 66 janelas de um hotel, descaradamente expondo os ocupantes que vão sobre seu negócio, algumas delas bastante íntimo.

reeditando do www.clarissadutra.tumblr.com

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(7º) Casos Crônicos

Aniversários, por Ney Pereira

Uma das boas coisas que nos trazem os amigos são outros amigos. Se um sujeito me escolheu para seu amigo, posso sem modéstia presumir que tem bom gosto para amigos; portanto, não é de se estranhar que alguns amigos de nossos amigos tornem-se nossos
também.

Esse caminho de redundâncias me levou, numa terça feira à noite, à casa do João. Outrora amigo do amigo, ele agora perdeu o aposto e é só amigo.

Todo finzinho de Novembro João faz aniversário – vício terrível, que nos acompanha por toda a vida, e que ninguém jamais conseguiu vencer. Chego atrasado para a festa surpresa. Da rua já se escutava a conversa animada no apartamento do primeiro andar. Ele ganhou flores e vinhos, e circula entre os vários grupos de amigos – uns espalhados na espaçosa sala, vários espremidos na cozinha, como é de costume. Acho que as pessoas deviam colocar o sofá na cozinha.

Os convidados ouvem música e bebericam uma cuba libre caprichada, meio acanhados por terem idade suficiente pra saber o que é uma cuba libre. Hoje em dia, todos têm influência sobre a trilha sonora das festas – quando menos se espera alguém saca do bolso um iPod ou pendrive e põe pra tocar sua própria seleção de sucessos. Curte o próprio repertório por umas quatro músicas, até que outro DJ decida que está na hora de trocar o som.

A Dani me ensina que uma dose de uísque é medida mantendo-se a garrafa virada por seis segundos. Na área de serviço, alguém abre uma garrafa de champanhe decepando o gargalo com um golpe seco de uma faca de carne. Sorrio, pensando que o conhecimento manguaça encheria vários volumes de enciclopédia, se ainda existissem volumes de enciclopédia.

Corta-se o bolo. Em festa de adultos, o bolo é encarado com certa desconfiança – um está de regime, outro diz que não é muito fã de doces. E é nessa hora que ouço a mãe do João dizer que é estranho pensar que o filho –Joãozinho – já avança rumo aos quarenta
anos.

Meu copo já tem mais água do que uísque. Olho pra mãe do João e exponho uma teoria que rascunhei dias atrás, em outro aniversário, este de um senhor octogenário.

A verdade é que ficamos menos velhos a cada aniversário.

A explicação é matemática. Um bebê de um ano, ao fazer dois, dobra sua idade; ao longo da vida, isso nunca mais vai acontecer. Ao fazer três, fica só cinqüenta por cento mais velho, e no ano seguinte, apenas um quarto. O João, que passou dos trinta e seis aos trinta
e sete, envelheceu quase nada.

A mãe sorri com a satisfação de quem percebe que uma teoria pode lhe ser útil; peço licença, e vou servir mais seis segundos de uísque, que esse negócio de beber gelo derretido me faz falar muita besteira.

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(6º) Casos Crônicos

Barbeiro, por Ney Pereira

O saudosismo e a nostalgia são armas que encontramos pra nos defender do que é novo e nos assusta. Nos agarramos a eles com força, em busca de uma zona de conforto na qual tudo é familiar. É reconfortante entrar numa delas. Aconteceu comigo outro dia: fui ao barbeiro.

Uma série de motivos me leva a não trocar o barbeiro pelo cabeleireiro. Por exemplo, um trauma de adolescência – ver cair, um a um, os dreadlocks recémfeitos, cortados num salão chique com nome afrancesado, sob o olhar satisfeito de meu pai. Não admitia ver o filho com aquelas “cobrinhas” na cabeça em plena formatura da escola. Nas outras vezes que me meti em salões moderninhos, sempre saí com a sensação que o corte na minha conta bancária tinha sido bem mais significativo que o nas madeixas. Não dá. Tem que ser barbeiro.

A preferência vem de longe. Minha mãe me levava à barbearia embaixo do meu prédio, quando eu nem tinha tamanho pra sentar-me à cadeira. Seu Altair colocava uma tábua entre os braços da poltrona pra que eu pudesse ficar na altura certa. Foi um significativo rito de passagem ir lá sozinho pela primeira vez! Dinheiro fechadinho na mão, passei triunfante pela portaria de casa e dobrei a esquina com a certeza inabalável de que agora, sim era um homem de verdade: eu ia cortar o cabelo sozinho!

Foi triste acompanhar o seu Altair perder a firmeza nas mãos e começar a errar os cortes, o que me fazia temer pela integridade de minhas orelhas. E foi mais triste ainda vê-lo ser atropelado, em frente à loja de calçados do Jonas, e ser levado numa ambulância.

Na adolescência, a nascente preocupação com o visual reforçou o significado daquela experiência. O barbeiro agora era o Nilson, que tinha um pequeno salão em Higienópolis. Meu pai me levava, e eles conversavam sobre coisas que um moleque da minha idade certamente não devia escutar – o que me fazia se sentir ainda mais amadurecido e másculo, com toda a experiência dos meus treze anos.

Depois veio o Isaías. Cortava o cabelo de todos os meus amigos, e isso estreitava os laços, uma vez que o sentimento de grupo era uma das coisas mais importantes nessa época. Já capaz de perceber a prosperidade de um negócio, fiquei feliz quando ele saiu do salão onde trabalhava para abrir o seu próprio. Depois, quando a vida foi separando os amigos, era gostoso ir ao Isaías também pra ouvir noticias deles – fofoca no salão não é privilegio feminino.

Eis que novamente fui obrigado a procurar outro barbeiro. O cabelo caindo sobre as orelhas e as indiretas da namorada atestavam que o corte era questão de urgência. E a correria diária exigia que fosse próximo ao trabalho. Tarefa difícil: o bairro dos Jardins é infestado de coiffeurs, hair studios e afins, mas barbeiro que é bom, nada.

Então, numa rua pela qual passo diariamente, achei. Uma portinha. Sem nome francês – bom sinal. Apesar de se intitular “Cabeleireiro”, a freqüência maciçamente masculina não deixava duvidas: era um barbeiro. Entrei. “Bora cortar, chefe?”. E o senhor de sotaque nordestino se levanta, já bem adaptado à pressa paulistana. Cabelo branco rareando, em contraste com um bigode pretinho, pretinho.

Um olhar panorâmico consagrava o salão como uma barbearia autentica. Pesadas cadeiras de ferro fundido, revestidas em couro vermelho preso com tachas. Três delas, que cabiam sem muita folga no salão retangular. Jornais e revistas mais novas que as da sala de espera do dentista, diversos potes com líquidos coloridos em cima de um balcão de fórmica, o indefectível pincelzinho para aplicar o creme de barbear, cheiro de loção pós-barba mentolada que arde pacas. Barbeiro clássico.

O corte, rápido e sem frescura, obedeceu à minha orientação de não mexer no comprimento, só “acertar as pontas”. Na televisão a um canto, o noticiário do meio dia dava o tom das conversas. Um comentário sobre a seleção aqui, um deboche sobre um candidato a prefeito ali, e quando vi o barbeiro já tirava do papel a gilete, quebrava a lamina e a ajustava à navalha pro acabamento.

Terminado o serviço, reconheci no espelho a obra simples de um bom barbeiro. Seu Zé Maria apertou minha mão, perguntou meu nome e agradeceu a preferência. Entregou-me um cartão, também atende com hora marcada. E cobra
preço dos Jardins – parece saber bem o valor que os saudosistas dão aos pedaços de ontem que acham por aí.

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(5º) Casos Crônicos

Groselha com leite, por Ney Pereira

Nunca entendi porque duas Brasílias. Mas o Vô Osvaldo tinha duas Brasílias. Uma bege, a outra devia ser branca. A garagem da casa da Coronel Silvério era coberta por umas telhas cujo nome eu não lembro, mas que eram o orgulho da Vó Maria. As duas Brasílias ficavam lado a lado, entre samambaias em vasos pendurados nas vigas de madeira da cobertura. Mas era ruim de jogar futebol lá – o portão era baixo, e cada vez que a bola ia pra rua, era um desassossego. Não que passassem muitos carros por ali; mas a Vó, sempre preocupadíssima, não nos deixava ir atrás. Ia pessoalmente buscar a redonda ladeira abaixo, com os netos aboletados no portão acompanhando o resgate. Morria de medo de que fôssemos vítimas de atropelamento, mordida de cachorro ou pneumonia. Quando alguém queria água gelada, ela sugeria que fosse da “geladeirinha marrom” – apelido do filtro de barro que ficava em cima da pia.O vizinho da direita era feirante. Tinha um cachorro muito bravo, e saía bem cedo num caminhão barulhento. A Vó reclamava do caminhão, mas temia mesmo era que o cachorro pulasse o muro e devorasse um neto ou dois. Sobrevivemos todos.

Eu passava boa parte das férias lá naquela casa, tomando groselha com leite e comendo bolo de cenoura. Aos domingos, o Vô queria me levar à igreja, mas eu não ia, não. Ficava vendo a Vó costurar, numa daquelas máquinas com gabinete de madeira. E me divertia vendo-a mudar a disposição dos móveis: a cada semana encontrava uma nova configuração para a estante, os sofás, a mesa de centro e o tapete.

O Vô Osvaldo tinha uma mania: fazer barquinhos de papel. Tíquete de supermercado, jornal, guardanapo – caiu na mão dele, dobra que dobra e sai um barquinho nos dedos ágeis. Aliás, lhe faltava um pedaço do indicador da mão direita, e as versões do acidente eram várias: bateu na quina da mesa; cortou num torno, à la Luis Inácio; prendeu na porta do carro. A da mesa era minha preferida.

No fundo da casa, a horta de onde saíam as cenouras para o bolo e também as verduras pra salada. Uma foto minha tirada ali, com poucos meses de vida, até hoje rende uma história de que eu nasci de um pé de repolho…

Se a manhã era ruidosa por causa do caminhão do feirante, à noite era difícil pegar no sono. Acostumado ao barulho de nosso apartamento no centro da cidade, eu estranhava a calma daquele bairro tranqüilo. A solução? Um clássico entre meninos de várias gerações: um passeio de carro. E eu podia até escolher em qual das duas Brasílias queria ir!

O Vô avisava, no sotaque carregado: “Só uma vortinha”.

Eu pechinchava: “Uma vortona!”.

A Vó fechava o negócio: “Uma vortoninha”, e lá íamos os três de Brasília pelo bairro da Saúde.
Vó Maria não planta mais cenouras, mas mesmo com as compradas no mercado ainda faz os melhores bolos de que se tem notícia. Eu parei de beber groselha com leite, e não há confirmação alguma sobre a história do repolho. Vô Osvaldo nos deixou há uns anos; espero um dia encontrá-lo pra saber a verdade sobre o dedo.

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