Videogame, por Ney Pereira
No dia oito de março de 1992 eu não fui pra escola. E olha que minha mãe quase nunca me deixava faltar na escola, só em casos extremos como doença, tempestade paulistana ou derrota vexatória do Coringão.
Mas dessa vez o motivo era nobre: tinha passado a noite inteira jogando videogame.
Nem todo mundo tinha um na época. Por isso, as locadoras costumavam alugar os consoles
pra molecada jogar lá mesmo, pagando por hora. Podíamos trocar os cartuchos ou passar horas seguidas jogando o mesmo game. Rolavam disputas, campeonatos, apostas e quem perdesse escutava bastante.
Bem em frente à minha casa, havia uma dessas, com o pouco criativo nome de Games&Games. Eu ia por prazer e também por business – aos dez anos, entregava lá os pães de mel que minha avó fazia. Combinação perfeita de lazer e negócios, que me rendeu uns trocos e o suspeito apelido de “Ney pão de mel”.
Naquele dia, havia passado boa parte da tarde jogando Street Fighter II. Nunca gostei muito dos jogos de luta. Além disso, eu era bem ruim. Mas acontece que, pra inteirar a grana pra jogar mais tempo, a molecada juntava as moedas que cada um tinha no bolso, e o resultado é que frequentemente havia grupos de três ou quatro moleques revezando a vez de jogar no mesmo videogame – os joysticks ficavam imundos. E como os jogos de luta eram os preferidos da molecada, eu acabava me resignando a levar um cacete toda vez que jogava.
Quando cheguei em casa, minha mãe sentencia: Você nunca mais vai jogar videogame nessa locadora. Fiquei atônito com aquela proibição tão radical e inesperada. O mistério durou até a noite.
Minha tia Guga trabalhava numa agência de publicidade, e sempre nos trazia um bolo de revistas. Eu gostava da maioria delas – tinha de carro, variedades, games, etc. Naquele dia ela me entregou o bolo de revistas, e eu fui direto pra Ação Games. Quando me viu rasgando o plástico, ela perguntou se eu já tinha visto o “brinde” – e de dentro de um envelope de papel pardo tirou meu Mega Drive novinho…
Não havia nada mais bonito. O design do console japonês era futurista, como os carros esportivos nipônicos em voga à época. O plástico preto reluzia, convidativo. 16 bits de ação e aventura, ao meu dispor. Passei a noite jogando Sonic – até hoje meu jogo favorito. Ganhei calos nos dedos – e um ótimo motivo pra não ir pra escola no dia seguinte.
A “ameaça” da dona Carmen mãe não se cumpriu – mesmo dono de meu próprio videogame, ainda ia à locadora bater papo com os amigos, disputar campeonatos e levar a ocasional surra. Mas no Sonic, ninguém ganhava de mim não…
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;)
Não havia nada mais bonito. O design do console japonês era futurista, como os carros esportivos nipônicos em voga à época. O plástico preto reluzia, convidativo. 16 bits de ação e aventura, ao meu dispor. Passei a noite jogando Sonic – até hoje meu jogo favorito. Ganhei calos nos dedos – e um ótimo motivo pra não ir pra escola no dia seguinte.
Alê olha para a própria barriga. Não vê nenhuma – vinte quilômetros de bike, três vezes por semana. “Devo e posso”, conclui triunfante. Sabia que aquele não devia ser o ponto principal – ela costumava soltar um comentário desconexo com o real problema antes de fazer a investida final. Mais silencio.


O personagem do ano é o anônimo que protesta nas praças do Cairo e na frente da Bolsa de Nova York.



